Os fatos ocultos sobre a gourmetização de tudo que você precisa saber

Bruno Morett

sábado, 29 de agosto de 2015

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A gourmetização de tudo é mais que uma realidade, mas ainda tem coisas que você precisa saber sobre isso. Quem ainda não se rendeu ao raio gourmetizador ao menos uma vez, que atire a primeira pedra.

 KA-BUUUUUM! O Raio Gourmetizador foi lançado e tudo se transformou em gourmet. Tudo mesmo!

 

  Basta um olhar atento ao andar na rua ou navegar na internet e a palavrinha estará lá para chamar sua atenção.

 

  Se parar para pensar, nem mesmo o salão de festas e a varanda do seu prédio escaparam dessa moda e se transformaram em espaços gourmet.

 

  E eu não duvidaria do risco de até você ter sido gourmetizado. Sim, isso mesmo!

 

  Você pode estar pensando... Mas que besteira! "Isso e só para tirar dinheiro do consumidor!”. Será mesmo?

 

  Fique ligado. Há verdades por trás disso que muitas pessoas não sabem.

 

  Além do mais, hoje essa expressão significa mais que um dos grandes clichês da culinária francesa na gastronomia atual.

 

  Mas não se preocupe, por que este artigo vai te ajudar a entender um pouco mais sobre a febre que já ganhou fãs e muitos inimigos.

 

  Vem comigo?!

 

 

 

(Créditos cotidianastiras.wordpress.com)

 

 

  Já faz um tempinho que essa palavra existe, mas de um tempo para cá aconteceram algumas mudanças no significado, que fizeram este fenômeno tomar as proporções que vemos hoje.

 

  Em grande parte foi uma obra do marketing que se utilizou dos produtos gourmet para chamar mais atenção da clientela.

 

  Eles só não contavam com tamanha banalização da palavra "gourmet” que se tornou motivo de piada nas redes sociais. Um tiro que saiu pela culatra.

 

  O fato é que moda da gourmetização se espalhou pelo mundo inteiro, até mesmo em países onde a gastronomia nacional é reconhecida há muito tempo como algo quase sagrado.

 

  Mas como brasileiro é sempre louco por uma novidade, a gourmetização de tudo ganhou ainda mais repercussão por aqui.

 

  Outro fator para o tamanho desta febre é a utilização das redes sociais, um dos principais meios de comunicação dos tempos de hoje.

 

  Porque comer gourmet se transformou em mais do que alimentar-se, mas um símbolo de entretenimento e motivo de diferenciação social. 

 

    Ei, Você! Se você está gostando deste artigo, diz o que você acha aqui embaixo nos comentários!


  Mas quando eu disse francês, é francês de origem!  Allez!

 

  Foi o advogado, político e cozinheiro Brillat Savarin (sim, o mesmo do último post) que lá criou esse conceito quando escreveu o livro "A fisiologia do gosto".

 

  Na verdade, a origem disso vem da gourmandise, um hábito que designava pessoas que gostavam de apreciar comida pela sua qualidade, que comiam pelo simples prazer de comer boa comida.

 

  É aquela história de tentar perceber todos os aromas da comida ao mesmo tempo em que come, tentando identificar os ingredientes, especiarias, texturas e sabores.

 

  Para eles comer era um ritual de apreciação e portanto comer de pé, conversando e sem nem prestar atenção ao que tem na boca era considerado quase um pecado.

 

  Era um costume de gente rica.

 

  Os gourmandes chegavam a gastar fortunas com viagens e jantares na busca da refeição perfeita e do conhecimento em gastronomia.

 

  Por outro lado, os gourmets eram aqueles profissionais especialistas e treinados para classificação de alimentos.

 

  Um Sommelierou um Barista por exemplo, classificam vinhos e cafés de acordo com suas características e qualidade. São eles os originais "gourmets".

 

  E com o passar do tempo esses dois conceitos foram confundidos. Gourmets e gourmands são pessoas distintas que ficaram conhecidas como gourmets.

 

  As confusões não param por ai

 

  Como esta palavra já era significado de requinte, sofisticação e qualidade por conta das pessoas que eram chamadas assim, o título de gourmet passou a ser dado também a produtos de qualidade, os alimentos gourmet.

 

  Foi assim que chegamos hoje em dia a papinhas de bebê, ração para gato e gelo...  todos eles gourmet!

 

  Mas esta é uma confusão mais moderna!

 

 

 

"Você sabe o que é caviar?! Nunca vi nem comi, eu só ouço falar..." (Zeca Pagodinho).

 

 

 

  Trufas brancas e negras, caviar de esturjão, botarga e presunto cru são alguns dos artigos de luxo que sabemos que são excepcionais e caros.

 

  Mas dizer simplesmente "caro” é olhar somente para uma banda da laranja. Esses alimentos são de fato exclusivos. Afinal de contas o processo de produção e o custo são bastante altos.

 

  Além deles, chocolates finos, vinhos, queijos e cafés especiais são produtos mais acessíveis que também custam mais caro por terem uma qualidade superior em comparação aos normais.

 

  Um exemplo é o queijo, um produto que pode ser feito até em casa. Porém, aquele queijo parmesão que vem da Italia, para ser chamado assim, deve respeitar uma série de padrões de qualidade.


  Até a raça da vaca e a idade são detalhes acompanhados de perto e podem alterar o resultado. Além de outros aspectos.

 

  Tudo bem que estamos falando de só mais um queijo, porem o produtor assume uma responsabilidade de entregar um queijo de tamanha qualidade tal qual anunciado no nome e no preço. 

 

  Olhando por este lado seria até justo chamar produtos desse tipo de gourmet. Porém até hoje eu nunca me deparei com um queijo gourmet.

 

  Isso porque quem consome este tipo de produto sabe que que o preço que se paga no fim das contas vale a pena.

 

  A exclusividade era reservada a artigos mais raros para incentivar o consumo daquelas iguarias. E a mão do marketing já começa a agir deste ponto.

 

  Ainda assim, a lógica da qualidade, do prazer e da boa mesa era o que decidia se um alimento era bom ou ruim. E quando algo não é bom, ninguém compra.

 

  Mas se algo fosse chamado de "produto gourmet”, significava que ele tinha algo de diferente, especial e inusitado.

 

  A partir de então a propaganda conseguiu criar uma forma de fazer vender seus novos produtos, Dizer que ele é GOURMET.

 

  Isso não quer dizer que eles estavam te enganando ou qualquer coisa do gênero.

 

  Pelo contrário, é mais do que justo dar um destaque a um produto feito com ingredientes superiores e técnicas diferenciadas.

 

  O fato é que nem sempre estas novas "comidas gourmets” respeitam altos padrões de qualidade.

 

 

 


 

  Você se lembra do brigadeiro gourmet?

 

  Essa foi uma das primeiras ondas de gourmetização das coisas e uma das origens do significado que a gente conhece hoje em dia por comida gourmet.

 

  Um brigadeiro é uma preparação muito simples, que utiliza ingredientes caseiros e todo mundo pode fazer em casa.

 

  Porém, quando a receita passa a ter chocolates meio amargos com cacaus de origem reconhecida e leite condensado artesanal, a figura muda completamente.

 

  O processo de gourmetização começou a ser ativado transformando esse doce em algo ainda mais especial e exclusivo.

 

  E os reflexos imediatos foram três:

 

- O brigadeiro passou a ser mais do que aquela simples sobremesa nacional.

 

 -As pessoas correram loucas atrás de experimentar como um brigadeiro poderia ficar tão diferente.

 

 -E o preço subiria a um patamar que não estávamos habituados a pagar por um, até então, simples brigadeiro.

 

  Com isso, foram reinventados pouco depois o cupcake, a pipoca, o cachorro-quente, o hambúrguer e muitas outras coisas.

 

  Até a água mineral não escapou dessa!

 

  Quem não se lembra daquela água importada da garrafa cilíndrica que era caríssima. Por bem ou por mal era apenas água de beber.

 

  A partir daí o cenário já estava pronto. A venda dessas comidas gourmetizadas vão de vento em popa. Era um sucesso atrás do outro.

 

  O interessante é que esses produtos passaram a seguir um modelo um tanto quanto inusitado. Um modelo de comidas gourmet.


  Eu selecionei algumas dessas regras em um miniguia que vai te ajudar a identificá-los mais facilmente. 

 

1.   Tem que ter como origem uma comida muito simples.


  É um fato que essa é a graça da gourmetização. Transformar o que é normal e banal em alguma coisa muito chamativa.

 

  O famoso cachorro quente da esquina, ou famoso Podrão, ganhou diversas versões. uma delas foi a da chef Roberta Sudbrack, que  fez nosso cachorro quente da fome de cada dia passar a ser chamado de SudDog. 

 

  E não para por aí, porque a pipoca, a coxinha de frango e o picolé recheado são exemplos ainda mais extravagantes.

 

2.   Tem que ser chamado de um jeito diferente e com alguma língua estrangeira no meio, melhor ainda!

 

  Vamos combinar que postar no Instagram "tomando picolé recheado no shopping" não tem graça nenhuma, não é?!

 

  Agora, uma paleta de morango com leite condensado faz toda a diferença.

 

  E o famoso hamburgão do trailer? Ops... eu quis dizer do Food Truck...

 

  Ou quem sabe um "Ceviche de atum com espuma de wasabi, Ecully, harmonizado com Terres de Benes Côtes de Provence”? (Clique aqui para conhecer esta história)

 

  Gostoso, não?!

 

3.   Tem que ter ingredientes pouco conhecidos, inusitados ou exóticos. Feitos artesanalmente e com técnicas muito diferenciadas.

 

  É aqui que entram os ingredientes da Amazônia ou que caracterizam um povo ou uma região muito distante de você.

 

   Ou ainda ingredientes pouco conhecidos pesquisados a fundo por chefes de cozinha e cozinheiros a fim de apresentar algo novo ao consumidor e como forma de resgatar um sabor esquecido.

 

  O Chefe Alex Atala já chegou a servir formiga saúva cru junto a um cubo de abacaxi em seu restaurante. E promete que a sensação é incrível.


  Dá uma olhada aqui embaixo. 


 

 

 


(Imagem retirada do site do restaurante D.O.M.http://domrestaurante.com.br/pt-br/sabor.html)

 

 

  Saboroso ou não, temos que concordar que para os hábitos alimentares do brasileiro de hoje isso não é normal.

 

  Outras expressões como "slow cooked”,sous vide, espumas e bolhas, gelatinas, ares, esferificações, nitrogênio líquido, sprays e pós são algumas das técnicas da recentemente chamada gastronomia molecular.

 

  Esta nova culinária, no geral geral, busca apresentar os ingredientes da forma mais surpreendente possível.

 

  E fez o maior sucesso com o chefe de cozinha e pioneiro nestas técnicas Ferran Adrià, que depois dele foi reproduzida em restaurantes do mundo inteiro.

 

  O restaurante de Ferran foi eleito algumas vezes o melhor restaurante do mundo.

 

4. Tem uma embalagem diferenciada, chamativa e geralmente mais sofisticada.

 

  Os restaurantes de comida gourmet são bastante diferentes. Para comprovar a ideia de sofisticação e qualidade, estes ambientes geralmente são muito bem decorados.

 

  Outro exemplo è a pipoca gourmet que demorou algum tempo para ser lançada no mercado por conta do desenvolvimento da embalagem.

 

  Como os grãos de milho já vem estourados, manter a crocância por tempo prolongado era uma preocupação.

 

  Até porque pagar quase 25 reais por uma pipoca de Lemon Pepper murcha seria uma decepção comparável a perder a final do campeonato de futebol.

 

  E no caso dos restaurantes a apresentação dos pratos tem que ser impecável e surpreendente, mas um problema recorrente é o de nem sempre ser capaz de reconhecer e entender o que você está prestes a comer. 

 

5. Porções reduzidas, mal dá para matar a fome.

 

  Esta é uma questão que divide opiniões.

 

  Alguns reclamam que não vale a pena pagar caro por pouca comida, mas eu defendo que o que é bom de comer tem que vir em pequenas doses.

 

  Do contrário existe um risco grande de enjoar daquilo ou de perder o valor de excepcionalidade que determinado alimento tem.

 

  As críticas são mais pesadas ainda para restaurantes de gastronomia contemporânea. Foram eles que fizeram a fama de pratos grandes e comida pequena.

 

  Está certo que um prato pode conter uma porção muito pequena (como na regra 3), mas em um jantar com essa temática são servidos em média 10 a 15 pratos diferentes.

 

  E como diz o ditado, é de grão em grão que a galinha enche o papo.

 

6.   Custo muito acima da média.

 

  É aqui que a mão do marketing mais trabalhou.

 

  Para ingredientes, nomes e embalagens exclusivas, nada melhor que um preço também exclusivo para combinar.

 

  Em alguns casos é justo o que se cobra, mas existem alguns absurdos por aí. Por isso é bom ficar de olho e às vezes até questionar.

 

  O que tem que prevalecer é o sentimento de ter valido a pena. Porém o que importa é que muita gente não gosta do preço salgado no fim da conta.

 

  Mas quanto a isso, uma verdade é inegável: comidas assim só estão à venda porque tem gente que paga por elas.

 

7.   Tem uma grande proposta de marketing por trás.

 

  Eles deram conta de fazer uma propaganda muito boa e conseguiram associar a palavra gourmet a bem-estar e prazer. 

 

  Desta forma a linguagem com o consumidor ficou mais fácil. Ao invés de explicar os vários porquês de tal produto ser diferenciado, a palavra gourmet dá conta disso de forma mais simples.

 

  O problema è que tudo virou gourmet!

 

8.  Virou motivo de diferenciação social

 

  Quem pode, pode. E quem não pode se sacode. Mas ninguém quer se sacudir...

 

  Todo mundo quer estar em evidência, na moda, fazendo coisas legais e sendo cool. E postar as fotos da sua ida ao restaurante famoso pode render algumas curtidas.

 

  Você se torna uma pessoa tão excepcional e especial quanto à comida que você posta nas suas redes sociais. Pelo menos é isso que eles querem que você pense.

 

  Dessa forma o chefe de cozinha passou a ser um mero coadjuvante nesta história. Parece que as pessoas não comem mais porque sentem prazer por aquela comida.

 

  Eu digo isso por que para um cozinheiro conseguir a expertise de criar um prato que seja agradável a ponto de entrar no cardápio do restaurante, são anos investidos em estudos, experiências e tentativas frustradas.

 

  Só que dizer para alguém que comeu um prato gourmet parece esta rem um grau maior de importância do que o prazer oferecido por uma boa refeição.

 

  Perdeu-se o hábito de dar valor também aquele que cozinhou para você. E assim conceito de o que é ser gourmet ou gourmands ficou completamente perdido



 

 

 

  Essas regras são bem básicas se comparadas ao grande universo que se tornou o mercado de comidas gourmet.

 

  Além do mais, não é nenhuma tarefa que uma pessoa bem atenta não consiga desvendar facilmente

 

  Só que na verdade, abordar essa temática envolve coisas além de o que você decide comer ou deixar de comer. É uma questão de comportamento também

 

  O problema da gourmetização de tudo é que as pessoas passaram a pensar que comida só è boa se for gourmet.

 

  E é meu dever te dizer que isso é uma grande mentira.

 

  Já está implícito no nosso hábito que se você quiser comer algo diferente da comida de casa tem que ser um hot dog ali naquele Food Truck e de sobremesa uma paleta mexicana.

 

  O raio gourmetizador chegou tão longe que não dá mais para comer um cachorro quente na barraquinha da esquina e de sobremesa tomar um picolé

 

  É como se junto da gourmetização acontecesse também a marginalização das comidas simples.

 

  Comida quando é boa não pode ter essas distrações de sofisticação, refinamento e extravagância.

 

  É algo muito mais simples.

 

  Comida boa tem que ser gostosa para você e fim de conversa. Ser chamada de gourmet ou não é uma questão mais superficial.

 

  O importante é voltar a ter prazer por comer, independente da comida que comida for. E também sem preconceitos.

 

  E para se desgourmetizar não é difícil. Alguns hábitos bem bacanas podem te ajudar a resgatar o verdadeiro significado de o que é gourmet.

 

  Procure comer junto das pessoas que você gosta, reservando um tempo para isso. Não tem nada pior do que comer com pressa sem nem mesmo sentir o gosto da comida.

 

  Tudo bem, a rotina de trabalho e estudos dos dias atuais é um fator que atrapalha muito. Mas fins de semana e feriados estão aí para isso.

 

  Saber cozinhar não é um problema, porque comidas muito simples podem dar uma satisfação sem igual.

 

  Eu tenho um irmão que nunca estudou gastronomia, mas faz uma pipoca com manteiga que eu já aceitei que eu, até depois de ter estudado, nunca serei capaz de igualar. É um fato!

 

  E ainda assim, a internet hoje em dia ajuda muito e aprender novas técnicas culinárias se tornou mais fácil. Basta assistir um vídeo no Youtube e reproduzir em casa.

 

  Um bom exercício para conhecer novos pratos e sabores é testar receitas novas. Faça isso sem medo e sem saber se vai dar certo!

 

  Se o resultado for bom, convide os amigos e repita!

 

  E como a alma de boas receitas são os ingredients, procure comprar legumes, frutas e verduras nos mercados locais, ou nas famosas feiras livres. Geralmente os vegetais são mais frescos que os do supermercado.

 

  Então eu te pergunto: já pensou você conhecer quem planta a salada do almoço da família no domingo?

 

  Converse com eles! Assim você vai saber de onde vieram aqueles vegetais e como foram cultivados direto da fonte.

 

  Posso te garantir que qualidade melhor que isso não há!

 

  Por fim, a melhor dica que eu posso dar é: Confie no seu paladar!


  Você nasceu com um termômetro natural que diz a você o que é bom e o que não é. Não desperdice seu tempo apenas seguindo o que as pessoas dizem. Sempre experimente coisas novas! 

 

  Desgourmetize-se! Você vai ver que a vida pode ter mais sabor.

 

  A prosa de hoje foi esta! Espero que você tenha gostado.


  Se voce tem outr opinião sobre a gourmetização de tudo, não perca tempo e escreve aqui embaixo nos comentários.

 

  Na próxima prosa eu vou trazer alguns dos sites e blogs gastronômicos que eu gosto muito e que também podem te ajudar a desgourmetizar a vida.

 

  Até lá!

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